quinta-feira, 23 de julho de 2009

A arte como extensão do homem (da periferia)

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por Camila Putti

A arte tem o poder de renovar a convivência entre as pessoas. Num ambiente marcado pela exclusão, pela violência e falta de perspectivas, é ela que transforma e humaniza as grandes periferias. A produção artística nos subúrbios cria um mundo imaginário (mas real!) onde se é possível conhecer o outro e, principalmente, a nós mesmos. A cultura suburbana explora o local, o espaço de convivência, o cotidiano, o que é incômodo. Seus artistas convertem suas experiências numa existência inovadora, onde a conquista do ser e da própria identidade é, quase sempre, alcançada.

As grandes influências da arte feita na periferia vêm de lutas antigas por espaço e visibilidade. Artes que resgatam raízes, costumes, história. O Hip-Hop, artes plásticas, o audiovisual independente, as danças folclóricas, a música alternativa e o teatro. Tudo produzido num contexto árduo, com poucos recursos, pouco incentivo e um tanto de discriminação.

Nestas regiões, a arte exerce muito mais que uma função catártica, atuando também como um agente social, uma vez que eleva o indivíduo da condição de esquecido ou excluído para a de produtor independente, pintor, cantor, dançarino, repentista, grafiteiro, etc. Deste modo, ganhando um reconhecimento que, de uma outra forma, dificilmente lhe seria atribuído. É no bairro, na comunidade, no gueto, que o artista fideliza o seu público. Mantendo com este, uma relação intensa e aberta. E muitas vezes, seu público torna-se um "co-artista" de suas produções. Porque nos subúrbios, a distância entre um e outro é pequena. Ambos fazem parte de uma mesma totalidade, em que a arte e a manifestação da cultura agem como instrumentos de afirmação.

A importância da arte na periferia se fundamenta no resgate das raízes culturais de seus moradores e na elevação de sua auto-estima. Ela faz o indivíduo pertencer a sua comunidade e se sentir pertence dela, causando um importante processo de transformação nesta micro-sociedade. É fora dos grandes centros urbanos que se percebe a necessidade de se valorizar o que é autêntico, o que é peculiar, o que é próprio de cada grupo. A arte torna-se, então, um caminho de descobertas, de trocas, de potencialização. Faz o artista se conectar com o mundo e fazer parte de uma extensão muito maior que sua vida cheia de adversidades e lutas diárias.

Sua função nas periferias vai muito além da "desmarginalização". A arte e a cultura formam um novo indivíduo, com mais habilidades, mais sensibilidade - no que diz respeito a percepção -, com mais esperança, com mais respeito ao seu próprio país que o coloca na situação de marginalizado. Elas trazem para a periferia uma segunda chance. Um escape do dia-a-dia. Transforma esta sociedade num espaço mais solidário, mais produtivo, mais rico, e efervescente.

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